o ladrão


Na noite silenciosa e escura,

fugindo de toda presença humana ou animal,

evitando os ruídos, furtivamente rouba

fogo das palavras e palavras do fogo

para si, para todos, para o amor que não conhecerá

algum dia

e a cinza fria lhe castiga as mãos.


El ladrón, poema de Juan Gelman.

Tradução: Leonardo Morais.

antes max do que nunca


estranho e triste

te descobrir

agora há pouco

- tão tarde -

você partiu

antes

MAX

do que nunca…


para Max Martins, o Poeta.



Autor: Leonardo Morais.

epitáfio para um poeta

 

Quis cantar, cantar

para esquecer

sua vida verdadeira de mentiras

e recordar

sua mentirosa vida de verdades.

 

Epitafio para un poeta, do poeta mexicano Octavio Paz.

Tradução: Leonardo Morais.

godzila no méxico

 

Escuta isso, meu filho; as bombas caíam

sobre a Cidade do México 

mas ninguém se dava conta.

O ar levou o veneno através 

das ruas e das janelas abertas.

Você acabava de comer e assistia na TV

os desenhos animados.

Eu lia no cômodo ao lado

quando soube que a gente ia morrer.

Tonto e nauseado me arrastei 

até a sala de jantar e te encontrei no chão.

Nos abraçamos. Você me perguntou o que estava acontecendo 

e eu não te disse que estávamos marcados pra morrer

e sim que iríamos iniciar uma viagem,

mais uma,  juntos, e que não tivesse medo.

Ao ir embora, a morte sequer 

fechou nossos olhos.

O que somos? você me perguntou uma semana ou um ano depois,

formigas, abelhas, cifras equivocadas

na grande sopa podre do azar?

Somos seres humanos, meu filho, quase pássaros,

heróis públicos e secretos.

 

Godzilla en México, do escritor chileno Roberto Bolaño.

Tradução: Leonardo Morais.

o vomitador de coelhos de cortázar

 

[...] Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta e espero sentir na garganta a pelúcia frágil que sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é rápido e higiênico, transcorre num brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca e neles trago, segurando pelas orelhas, um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é um coelhinho normal e perfeito, apenas muito pequeno, pequeno como um coelhinho de chocolate mas branco e inteiramente um coelhinho. O ponho na palma da mão, levanto-lhe a pelúcia com uma carícia dos dedos, o coelhinho parece satisfeito de haver nascido e se agita e bate o focinho de um coelho contra minha pele, movendo-o com esse  roçar  silencioso e úmido do focinho de um coelho contra a pele de uma mão.  Procura o que comer e então (falo de quando isso acontecia em minha casa no interior) o sento comigo ao balcão e o ponho no grande vaso onde cresce um trevo que a propósito eu plantei. O coelhinho levanta totalmente suas orelhas, envolve o trevo terno com um rápido movimento do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e me ir, continuar por um tempo uma vida não diferente  a de tantos que compram seus coelhos nas granjas. [...]

 

Trecho do conto Carta a una señora en París, do livro Bestiario, de Julio Cortázar.

Tradução: Leonardo Morais.

nado à cacaso

 

no mar

de mineiros

tubarões

 

rosas

drummonds

& murilos 

 

cacaso

não ao

acaso

 

nadou 

de

braçada

 

fez da 

onda

lira

 

encantou 

sereia

em musa

 

esculpiu

versos

castelos

 

de areia         

na praia

branca

 

 

 

da página

 

 

Poema integrante da plaquete Cacaso não por acaso, PorAcactus Editora.

Autor: Leonardo Morais